Capítulo 1

O Funeral Cósmico

"A morte é uma doença. Nós somos a cura. Diga adeus ao luto. Diga olá para a Eternidade."
— Slogan da Campanha Publicitária da ImunoCorp, Ano 2199 (Era Pré-Colapso).

A primeira coisa que sinto ao despertar não é a luz. É a fome.

Ela não chega como visita. Mora em mim. Rói as bordas internas das costelas, arranhando o vazio com unhas que não existem. Não pede comida — pediu, há décadas. Agora, só ronca.

Abro os olhos. As pás do ventilador giram num ritmo doentio — fwoomp, fwoomp, fwoomp — fatiando o ar pesado sem refrescar absolutamente nada. Na escrivaninha, uma barra de proteína e um copo de café aguardam há seis semanas. O mofo já colonizou os dois. Não me interessa saber se me matariam ou me saciariam. Duvido que fizessem qualquer uma das duas coisas.

Ponho os pés no chão de pedra gasta e espero o estalo da coluna, a vertigem de quem não come sólido há semanas. Não vem. Os músculos respondem com eficiência hidráulica, como sempre respondem, como vão responder amanhã e daqui a mil amanhãs.

É uma blasfêmia continuar de pé.

Pego um caco de vidro do chão sujo e pressiono contra a palma da mão. A pele se rompe. O sangue brota, escuro e vivo. Um. Dois. Três segundos — e o zumbido começa, uma vibração fria na raiz dos dentes. Fios prateados e microscópicos tecem a carne de volta ao lugar. Sem cicatriz. Sem memória. É o único relógio que ainda funciona neste apartamento: o tempo que meu corpo leva para esquecer que eu me cortei.

O servidor no canto do quarto é uma monstruosidade montada com sucata roubada dos lixões da Elite. O zumbido insalubre das ventoinhas é a única música que ainda me resta. Meus dedos encontram o teclado mecânico. Os cliques soam como ossos estalando no escuro.

USUÁRIO: CLAUS
STATUS: ALVO PRIORITÁRIO — NÍVEL 4
CONEXÃO: ESTABELECIDA VIA PROXY FANTASMA

Passei os últimos seis meses decodificando os fantasmas do Laboratório de Pesquisas Planetárias. A Elite não esconde as suas atrocidades em cofres de aço — esconde em criptografia quântica, confiando que a população zumbificada nunca teria capacidade ou paciência para quebrá-la. Esqueceram uma regra básica: o tédio cria especialistas. E eu tenho todo o tempo do mundo para ser especialista em alguma coisa.

RASTREAMENTO ATIVO DETECTADO.
NÓ: SETOR 7.
TRIANGULAÇÃO: 98% CONCLUÍDA.

— A linha queima em trinta segundos. Nos Dutos Velhos, Setor 4. É o único ponto cego que restou. — aviso.

— Te encontro em uma hora. Não morra no caminho. — A voz de Anna soa metálica.

— Prometer isso seria mentira. E você odeia quando eu minto.

[ FIM DA AMOSTRA GRÁTIS ]
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